4. BRASIL 27.2.13

1. VOSSAS EXCELNCIAS, OS GARIMPEIROS
2. "NS NO HERDAMOS NADA" - "PT EXAURE HERANA DE FHC"
3. A SEGUNDA CONDENAO DE YOANI
4. UMA VIDA MARCADA PELA DITADURA

1. VOSSAS EXCELNCIAS, OS GARIMPEIROS
Ex-deputados do PT, Virglio Guimares e Paulo Rocha celebram um fabuloso negcio com associao de garimpeiros de Serra Pelada para ficar com 56% da explorao de duas jazidas de ouro. Acordo vai ser investigado pelo Ministrio Pblico
Josie Jeronimo

Candidato derrotado a uma vaga de suplente de senador em 2010, o ex-deputado Vrgilio Guimares, do PT de Minas Gerais, fez uma apario espetacular no garimpo de Serra Pelada, no domingo 17. Conduzido por outro ex-parlamentar, o tambm petista Paulo Rocha, do Par, Virglio deu uma palestra para 545 garimpeiros e voltou para casa com um contrato fabuloso. Atuando como consultor de empresas interessadas em investir em duas jazidas com reservas calculadas em 33 toneladas de ouro, Virglio e seus clientes tero direito a ficar com 56% de toda a riqueza que for extrada do lugar, reservando 44% para a cooperativa que rene 38 mil garimpeiros de Curionpolis, a 700 quilmetros de Belm. Virglio admite a negociata: Fui l fazer uma palestra de gesto. A me desafiaram: se o senhor  to bom gestor, pode nos ajudar aqui?

INFLUNCIA - Em discurso aos garimpeiros, o ex-deputado Paulo Rocha prometeu valer-se de seu prestgio junto ao governo federal para liberar R$ 550 milhes retidos pela Caixa
 
As condies do contrato da empresa de Virglio, a Brasil Sculo III, que privilegiam os gastos de investidores sobre os garimpeiros, esto prximas do que se pratica no mercado. Mas o acordo, firmado no ltimo fim de semana, j produz descontentes. Garimpeiros levaram o caso para o Ministrio Pblico Estadual, reclamando que a firma, registrada em Belo Horizonte com capital de R$ 20 mil, no tem capacidade econmica e tcnica para explorar as cerca de 33 toneladas de ouro estimadas nas duas lavras. O ex-deputado se defende: A minha empresa foi contratada para fazer gesto. Minha misso  viabilizar o negcio. Vou buscar mineradora para fazer a explorao, confirma. Nascido numa famlia de posses, o prprio Virglio ir acumular uma pequena fortuna se o negcio prosperar. Ficar com 5% do ouro extrado. Se a rea tiver, mesmo, 33 toneladas de ouro, sua fatia ser equivalente a 1,6 toneladas, ou R$ 132 milhes pelo valor do metal na semana passada.

SEDUTOR -  Em palestra para 545 garimpeiros, no domingo 17, o ex-deputado Virglio Guimares convenceu-os a fechar um contrato com sua empresa para explorao de 33 toneladas de ouro
 
J Rocha uniu-se a Virglio no apenas pelo ouro  mas tambm pelos votos. Aquecendo os motores de uma eventual candidatura ao governo do Estado em 2014, ele transformou seu gabinete poltico, em Belm, em ponto de encontro para defender uma reivindicao histrica dos garimpeiros. Quer convencer a Caixa Econmica Federal a honrar uma dvida de R$ 550 milhes, acumulada em dcadas de erros e desvios na pesagem de ouro que foram vendidos  instituio. A legitimidade do pleito j foi reconhecida em decises monocrticas de dois tribunais, o Tribunal Regional Federal e o Superior Tribunal de Justia, mas a Caixa mantm recurso que contesta a deciso. Numa tpica disputa que ter um desfecho poltico, Rocha no esconde que pretende usar de prestgio junto ao governo federal para liberar o dinheiro. Uma influncia a peso de ouro. No Planalto, a postura  no se envolver no caso  at que os garimpeiros apresentem um projeto sustentvel de explorao do ouro da regio.


2. "NS NO HERDAMOS NADA" - "PT EXAURE HERANA DE FHC"
A largada para 2014 comeou fora do tom. Dilma diz que os anos de presidncia dos tucanos foram um "desastre" e Acio fala de "fracasso" do governo do PT. E, assim, ambos ignoram a trajetria de sucesso e estabilidade do Brasil nos ltimos 18 anos 
Alan Rodrigues


 DE OLHO NA REELEIO - Ao lado de Lula, durante festa em comemorao aos 10 anos do PT no poder, Dilma Rousseff se colocou como candidata
 
Antecipada em mais de um ano, a campanha presidencial de 2014 foi para a rua na ltima quarta-feira 20 num tom enviesado. Sem apresentar propostas que os diferenciassem aos olhos do eleitor, a presidenta Dilma Rousseff, anunciada como candidata  reeleio durante a festa de comemorao dos 10 anos do PT no poder, e o senador Acio Neves (PSDB-MG), pr-candidato tucano ao Planalto, descreveram em seus discursos um Pas que vai do desastre neoliberal ao fracasso petista. Da tribuna do Senado, Acio desfiou 13 argumentos destinados a desqualificar a gesto do PT. Os pilares da economia esto em rpida deteriorao, colocando em risco avanos que o Pas levou anos para implementar, como a estabilidade da moeda. A grande verdade  que, nestes dez anos, o PT exaure a herana de FHC, disse o tucano. Horas depois, em evento do PT na capital paulista, Dilma respondeu dizendo ouvir na oposio ecos dissonantes, com timbres de atraso. Na mesma linha adotada pelo oponente, tentou desmontar a tese de que o governo tucano construiu as bases econmicas que permitiram os avanos sociais alcanados na gesto do PT. Ns no herdamos nada. Ns construmos, devolveu Dilma.

MIRANDO A PRESIDNCIA - Da tribuna do Senado, Acio Neves tentou resgatar as conquistas do governo FHC
 
Desde 1967, quando o intelectual francs Guy Debord (1931-1994) criou a expresso Sociedade do Espetculo  recorrente entre os cientistas sociais a analogia da poltica com o teatro. Para Debord, em tempos dominados pela imagem, o indivduo passa a ser e a viver alienado em um mundo no qual a fico se mistura  realidade, e vice-versa. Sem recortes, a poltica  assim. Uma realidade em que os eleitores surgem como meros espectadores de cenas muitas vezes fictcias protagonizadas por polticos. Na quarta-feira 20, PT e PSDB deram corpo  teoria do filsofo francs. Nesse embate, o PT, em cartilha batizada O decnio que mudou o Brasil produzida pela Fundao Perseu Abramo, classificou a dcada em que o partido esteve  frente do governo federal, 2003 a 2013, como indutora do crescimento e gerao de empregos e minimizou as realizaes do governo tucano, 1995-2002. J o PSDB afirmou que a administrao FHC ergueu os pilares que possibilitaram o Pas desenvolver e acusou o PT de destruir o seu legado. A realidade  distinta. Nos ltimos 18 anos sob a gesto de PSDB e PT, o Brasil avanou. As bem-sucedidas polticas dos dois perodos transformaram a vida de milhes de brasileiros. Fernando Henrique herdou um quadro econmico deteriorado. Inflao desenfreada, desconfiana internacional, empregos em declnio, investimentos minguados, mas consolidou no Pas uma moeda forte, que permitiu que os brasileiros controlassem suas despesas e planejassem o futuro. A estabilidade econmica estabeleceu os alicerces fundamentais para sustentar o crescimento e os avanos sociais da era Lula e Dilma. Sob o PT, o Brasil acumulou 18,5 milhes de novos postos formais de trabalho, a renda mdia dos trabalhadores aumentou em 20,8%, o salrio mnimo cresceu 70,7%, acompanhado da queda da desigualdade de renda em 11,4% e a pobreza absoluta em 37,3%. Mas, alheios  realidade dos fatos, os adversrios na corrida presidencial para 2014, da maneira mais conveniente para cada um deles, preferiram avocar para si a paternidade das polticas pblicas e econmicas que nortearam os progressos do Brasil nas ltimas dcadas. Para analistas, porm, os projetos de PSDB e PT se complementam. O professor de economia da PUC-Rio, Jos Mrcio Camargo considera uma bobagem contrapor um modelo de poltica neoliberal a um modelo desenvolvimentista. No fim dos anos 80, o Brasil era desorganizado, com inflao de mais de 1.000% ao ano e extremamente fechado. A revoluo comeou em 1990 e foi at 2006. At meados da dcada passada, os governos eram muito parecidos. O resto  retrica poltica, diz Camargo. Ernesto Lozardo, professor de Economia da Fundao Getulio Vargas (FGV) de So Paulo, tambm reconhece que os feitos de PSDB e PT devem ser analisados em conjunto. A economia mundial cresceu muito nos anos Lula e, com a economia arrumada, seu governo se beneficiou disso. Em dez anos, o PT tirou 36 milhes de pessoas da misria e as inseriu na economia.  como tirar da misria uma Espanha inteira, afirma Lozardo.

Em meio ao debate comparativo com o PSDB, PT e partidos da base aliada deram incio ao enfrentamento direto com a oposio e lanaram a campanha de reeleio da presidenta Dilma Rousseff. Coube ao ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva ditar o tom das comemoraes ao criticar nominalmente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidencivel tucano, senador mineiro Acio Neves. Em uma fala repleta de ironias, o ex-presidente Lula mandou um recado  oposio ao declarar que os adversrios podem juntar quem quiser que no iro derrotar Dilma nas eleies presidenciais de 2014. Eu no vou responder a eles. A resposta que o PT deve dar a eles  que podem se preparar e juntar quem eles quiserem, vamos dar como resposta a reeleio da Dilma em 2014.  essa a consagrao da poltica do Partido dos Trabalhadores, afirmou Lula. Da prxima quinta-feira 28 at o ms de maio, Lula percorrer uma dezena de cidades inaugurando uma srie de seminrios em que o PT tornar a exaltar seus dez anos  frente do governo. Algumas viagens sero realizadas ao lado de Dilma Rousseff, com o intuito de turbinar a sua pr-candidatura  reeleio. Enquanto no combina sua agenda com a de Lula, Dilma far um priplo pelo Nordeste. Na tera-feira 26, estar ao lado do ministro da Integrao Nacional, Fernando Bezerra, na inaugurao de uma barragem no Cear. Em seguida, em data ainda a ser confirmada, os dois tambm iro  Paraba. Do lado tucano, Acio participar na segunda-feira 25, em Belo Horizonte, da abertura de seminrio do PSDB ao lado de Fernando Henrique Cardoso. Em maro, acompanhar em uma palestra o governador do Par, Simo Jatene (PSDB). Os eventos tm o objetivo de manter o senador na mdia at a conveno nacional do PSDB marcada para 18 de maio. O giro pelo Pas de Acio, no entanto, s ser intensificado no incio de junho, depois da exibio das inseres do PSDB na tev.

Enquanto PT e PSDB se digladiam, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, outro nome com pretenses eleitorais para 2014, corre por fora. Na quinta-feira 21, um dia depois da antecipao do debate eleitoral por tucanos e petistas, Campos pediu que no se eleitorize tanto a poltica brasileira e sugeriu que no se mantenham as velhas rinhas, numa referncia ao antagonismo PT x PSDB. Disse ainda que o Brasil precisa de um novo debate. As declaraes foram dadas durante cerimnia com 184 prefeitos pernambucanos, no seminrio Juntos por Pernambuco, no municpio de Gravat, a 80 quilmetros da capital do Estado. Apesar de seu discurso, no entanto, o evento acabou ganhando ares de pr-candidatura. Durante seu pronunciamento, Campos foi interrompido seis vezes por aplausos e aclamado aos gritos de presidente.


3. A SEGUNDA CONDENAO DE YOANI
Perseguida em seu pas pelo delito de opinio, a blogueira cubana enfrenta no Brasil uma turba disposta a impedir que ela fale
Pedro Marcondes de Moura

 BLOQUEIO DE IDEIAS - Yoani Snchez foi cercada por ativistas durante toda a sua viagem pelo Brasil. Eles exigiam seu silncio, mas acabaram ampliando sua voz
 
"Seu maior crime, doutores julgadores,  o de pensar diferente.  o chamado delito de opinio, crime que os cdigos no condenam. Crime de impunidade democrtica. Crime dos homens livres e das naes soberanas." Foi com esse libelo que a advogada Mrcia Albuquerque defendeu, em 1967, o lder comunista Gregrio Bezerra, processado pela ditadura militar. Naqueles dias cinzentos de expurgos e prises arbitrrias, os argumentos da advogada foram solenemente desprezados pelos juzes fardados. Hoje os tempos no Brasil j so outros, mas um idntico desprezo pela liberdade de pensamento foi revelado agora por ativistas que herdaram os antigos partidos perseguidos da esquerda brasileira. A democracia, como se v, no venceu por inteiro.
 
A blogueira cubana Yoani Snchez, 37 anos, j perdeu as contas de quantas vezes foi detida em seu pas por delitos de opinio. Ao visitar o Brasil, na ltima semana, ela ganhou como recepo uma espcie de segunda condenao. Conhecida por narrar as privaes e violaes aos direitos humanos em Cuba no blog "Generacin Y", Yoani tornou-se alvo de protestos de setores de esquerda simpticos a Fidel e Ral Castro. Foi hostilizada e xingada de "traidora" e "agente da CIA" por manifestantes mais dispostos ao enfrentamento do que ao debate. Todos os estridentes detratores estavam livres para se organizar e expressar seus ideais. J na Cuba revolucionria que defendem, um ato desses, sem a bno do Estado, poderia lev-los  priso.

Depois de cerca de cinco anos de espera e 20 autorizaes de sadas para viagens internacionais negadas pelas autoridades cubanas, Yoani Snchez desembarcou no Recife na madrugada da segunda-feira 18. Foi o incio de um tour poltico de quase 80 dias por mais de 12 naes em que pretende denunciar arbtrios e injustias do regime dos irmos Castro. Em solo brasileiro, sob vaias, Yoani disse que assistia a "um banho de pluralismo e de democracia". Claques formadas por manifestantes de movimentos sociais, estudantis e alas radicais do PCB, PCdoB e PT se agruparam para confront-la em eventos pblicos. Mesclaram gritos de "Fora, Yoani" ou "Traidora" com outros ainda mais fortes. Seguraram cartazes acusando-a de ter contas no exterior. Impediram que ela falasse ao pblico e atiraram-lhe dlares falsos em referncia a documentos revelados pelo Wikileaks que mostram encontros da blogueira com diplomatas americanos em Havana. Conseguiram at adiar a exibio do documentrio "Conexo Cuba-Honduras", principal motivo de sua vinda. Se assistissem ao filme, dirigido pelo brasileiro Dado Galvo e que conta com o depoimento de Yoani Snchez, veriam cenas de dissidentes do castrismo sendo presos por explicitarem opinies.
 
O governo brasileiro recebeu denncias de que a ao de turbas de protesto contra Yoani teriam sido fomentadas pela embaixada de Cuba e seus servios de informao. Se isso fosse verdade, se estaria frente a uma trapalhada daquelas, dignas de entrar para os anais da espionagem internacional. A cada enfrentamento, os militantes no conseguiram nada alm de lanar mais holofotes para a "perigosa dissidente". Yoani possui como arma apenas o poder de comunicao. Dispara  opinio pblica sua viso crtica ao regime e com os protestos pode explicitar a diferena entre a liberdade de expresso no Brasil e na ilha de Fidel. "Ela no fala nada novo", diz Williams Gonalves, professor de relaes internacionais da UERJ. "Agora, esses militantes morderam a isca. Era s deix-la falar o que quisesse e passear em paz", comenta. A repercusso das manifestaes levou a Cmara dos Deputados a receber Yoani Snchez com status de autoridade na quarta-feira 20. Na Comisso de Constituio e Justia (CCJ), ela assistiu a um trecho do documentrio e viu parlamentares de partidos da base aliada e oposicionistas divergirem sobre a sua presena. Era mais um ato impensvel em Cuba, onde existe apenas uma legenda oficial. "O Parlamento do meu pas tem um triste histrico, nunca recusou uma lei. Nunca realizou um debate com opinies divergentes", ironizou a blogueira.


4. UMA VIDA MARCADA PELA DITADURA
Torturado por agentes do regime militar ainda beb, Carlos Alexandre passou a sofrer de fobia social e nunca se recuperou do trauma. Na semana passada, aos 39 anos, ele se suicidou
Rodrigo Cardoso

 Ele fora anistiado e recebeu uma indenizao de R$ 100 mil. Do total, R$ 40 mil foram gastos em uma cirurgia para corrigir o maxilar deslocado por um militar
 
Pouco antes de atentar contra a prpria vida ao ingerir medicamentos em excesso, Carlos Eduardo Alexandre escreveu um e-mail para um amigo  1h30 do sbado 16. Nele, justificava o ato, assumindo no enxergar mais perspectivas na vida. Queixava-se do pouco dinheiro que ganhava com o trabalho e listava os bens que deixaria: um computador, um HD externo, uma coleo de histrias em quadrinhos e outra de CDs. Na sequncia, consumou a ao fatal. Cac, como carinhosamente era chamado pelos familiares, suicidou-se aos 39 anos, no apartamento em que morava com a me e a irm, em So Paulo. Mais correto, porm,  afirmar que a vida lhe foi tirada pelos excessos do regime ditatorial que mancharam de sangue a histria do Pas entre 1964 e 1985. Ele foi suicidado, na verdade, uma vez que a morte dele foi a consequncia de todo o processo de angstia que ele viveu nesses anos todos aps ser torturado, afirma seu pai, o jornalista e cientista poltico Dermi Azevedo, que mora em Belm, no Par.
 
A cena  kafkiana, mas aconteceu com Carlos Alexandre. Em 14 de janeiro de 1974, com apenas 1 ano e 8 meses, ele recebeu choques eltricos e foi vtima de outras sevcias nos pores do Departamento Estadual de Ordem Poltica e Social (Deops), em So Paulo. Ali, ele, a me, a pedagoga aposentada Darcy Angozia, e o pai foram torturados pelos agentes da ditadura. Cac apanhou porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que ele j era doutrinado e perigoso, revelou Darcy, em 2010, em entrevista exclusiva  ISTO. A vida de Carlos Alexandre jamais voltaria a entrar nos eixos depois desse episdio. Em meio  presso por crescer em um ambiente em que seus pais eram tachados de bandidos e terroristas pela vizinhana e vigiados pelos militares, ele desenvolveu um transtorno conhecido como fobia social. Ao sofrer dessa perturbao, a pessoa, temendo ser rejeitada e humilhada, torna-se reclusa. Na infncia, o garoto fazia birra para no ir  escola, porque no queria interagir com outras crianas. Foi na adolescncia, porm, entre os 13 e os 20 anos, que a situao piorou. Passou esse perodo, praticamente, dentro de casa. Acessos de fria o faziam quebrar o que via pela frente. Na poca, tambm tentou o suicdio.

MEMRIA - Acima, Carlos, aos 3 anos, com a famlia. Seu pai, Dermi ( esq.) publicou um texto em homenagem ao filho no Facebook
 
Carlos Alexandre comeou a descobrir o seu passado por volta dos 10 anos de idade  as histrias eram reveladas aos poucos pelos pais. Desde ento, ele frequentou sesses de psicoterapia. Os efeitos da ditadura no passam para quem saiu da tortura, diz Ivan Seixas, coordenador do escritrio paulista da Comisso Nacional da Verdade (CNV). J na fase adulta, Carlos Alexandre prestou servios de informtica como autnomo. Em 2010, foi anistiado. Recebeu uma indenizao de R$ 100 mil e gastou R$ 40 mil em uma cirurgia para corrigir o maxilar, que fora tirado do lugar por um militar que o levou de casa. O ex-delegado Josecyr Cuoco, que participou da tortura do Cac, vende doces e salgados em Santos, lembra o pai, que, aos 63 anos, preferiu no ir ao enterro do filho. Achou melhor guardar a imagem de Carlos Alexandre vivo. Para homenage-lo, o jornalista escreveu um texto publicado em sua conta no Facebook. Meu filhinho, voc sofreu muito. S Deus pode copiosamente banhar-te com a gua purificadora da vida eterna, diz um trecho.

